Karol Conka: 'O medo não pode ser natural na vida das pessoas resistentes'
Demorou, mas chegou. Cinco anos para ser exato. Ambulante, segundo álbum de Karol Conka, está agora a poucos cliques do seu fone de ouvido. "Um álbum autêntico coerente e de uma artista corajosa", anuncia Elza Soares em texto enviado à imprensa. O trabalho de estreia da rapper curitibana em uma gravadora multinacional reúne 10 faixas inéditas que transitam por sonoridades que vão do ragga ao reagge, passando pelo trap e r&b – todas com verniz pop. A produção é do paulistano Boss in Drama.
Para os desavisados, Conka lançou seu primeiro disco cheio em 2013, o elogiado e frenético Batuk Freak. Na sequência veio Tombei, single responsável por sua projeção nacional. Nos anos seguintes, ela lançou uma porção de hits, incluindo É o Poder, Farofei e Lalá. Em paralelo, Conka passou a acumular credenciais de apresentadora de TV, modelo, ícone fashion, além de referência do ativismo negro no País - com posicionamento sempre focado na valorização da autoestima e do amor próprio entre as mulheres.
Em entrevista ao HuffPost Brasil, Conka falou sobre os bastidores e a proposta do novo, que chega numa fase em que ela está mais "mais tranquila e centrada". A rapper também falou o que pensa sobre o momento de pessimismo da população negra e LGBT diante novo cenário político que será instaurado no Brasil a partir de 2019. Para ela, o medo é algo que não algo que não pode ser naturalizado nesse momento. Sobre sua participação nesse contexto, ela afirma que há sempre o lado do problema e o da solução. "Eu escolhi usar a minha arte e o meu dom para ser solução e conforto para as pessoas", afirma.
Por que você demorou cinco anos para lançar este álbum?
Tive dificuldade de conciliar minha agenda. Chegou um momento em que eu não tinha mais tempo para entrar em um estúdio e produzir. Eu não queria fazer do jeito convencional, que é aquela coisa de receber a batida, escrever em cima e gravar. Eu queria tudo muito orgânico. Também tive dificuldade de encontrar produtores que produzissem do zero comigo. Desabafando com meu amigo Boss in Drama (o produtor Péricles Martins), ele se sensibilizou e disse "vou arriscar". Ele não se sentia apto para fazer meu álbum porque achava que seria algo grandioso demais. Eu disse "relaxa e vamos fazer". Os temas surgira automaticamente, com naturalidade, assim como as batidas e a harmonia. As 10 músicas inéditas do álbum foram feitas com muito amor, tranquilidade e verdade.
No geral, Ambulante é um disco menos frenético que Batuk Freak. O que explica isso?
Este segundo álbum é mais maduro que o primeiro. Eu não gosto de comparar meus trabalhos ou me comparar comigo mesma, mas se fosse para falar sobre o que aconteceu nesses últimos cinco anos diria que fiquei mais madura. Vivi experiências, passei por situações extremas e cruciais que me deixaram mais atenta nessa vida. Isso acabou refletindo no Ambulante. Hoje estou mais tranquila, mais centrada. Procurei canalizar a minha energia na solução, naquilo que vai me trazer conforto e tranquilidade na hora de deitar a cabeça no travesseiro. A minha força e acidez continuam presentes no álbum, isso faz parte da minha personalidade. Mas eu também quis falar sobre coisas que vivo e que o público não me vê vivendo.
Certa vez uma repórter perguntou: "Por que você nunca demonstra vulnerabilidade?". Eu não tinha parado para pensar nisso. E fiquei com isso na cabeça. Nesse álbum eu quis mostrar minha vulnerabilidade na música Saudade, por exemplo. Ela surgiu de uma situação em que senti saudade de um namorado. É um música que dá até uma vontade de chorar. Eu considero isso uma demonstração da minha vulnerabilidade. Mas ao mesmo tempo em que mostro essa vulnerabilidade, eu mostro a força da superação. Acho importante a gente sofrer e ficar triste, mas é preciso usar o sofrimento como uma elevação da alma, um aprendizado.
Falando em vulnerabilidade, queria que você falasse sobre a questão do transtorno de ansiedade, um quadro que você enfrenta e que já compartilhou com os fãs.
A ansiedade é muito triste. As pessoas acham que ela se mostra só nas pessoas que ficam tremendo ou falando rápido e suando. A ansiedade é muito pior que isso. Ela dá gastrite, dá úlcera, insônia, confusão, fadiga, perda de apetite. Tem dias que a ansiedade ataca e você não consegue controlar aquilo. Como eu não quero ficar vivendo sob efeito de medicamento forte, eu procurei um equilíbrio. Eu faço uma autoanálise comigo mesma. Eu gosto de perder, no mínimo, 30 minutos do meu dia analisando as coisas que estão ao meu redor. Eu também gosto de perguntar para as pessoas mais queridas e próximas como ela estão me enxergando. Porque às vezes a gente não se enxerga. Eu conto com esse tipo de programa para manter a ansiedade no lugar.
Hoje penso que se eu ficar ansiosa, as coisas vão continuar ali no lugar, só eu que vou passar mal. Então hoje elas só saem do lugar quando eu fico calma e planejo que elas saiam. Por que ficar numa frustração com uma coisa que não existe ou sofrer por algo que nem chegou ainda? Ou sofrer por uma coisa que está só na minha cabeça? Pensar nisso fez com que o álbum saísse dessa maneira também. Eu queria falar somente sobre as coisas que queria falar e não o que queriam ouvir de mim, que achavam que eu deveria falar.
aça é um dos destaques deste álbum. Como foi a escolha dele para primeiro single de trabalho?
Kaça é uma das minhas músicas favoritas do álbum. É uma música forte. Eu sempre quis ter uma música mais bate-cabeça. E falei exatamente isso para o Boss in Drama: "Quero ter uma música bate-cabeça, que vai crescendo e aí, de repente, já estou batendo a cabeça na parede e em todo o mundo". O que eu falo nessa música é sempre na intenção de elevar a consciência das pessoas. Essa música é provocativa e ácida. Quem escuta, acaba se questionando sobre a própria originalidade. "Será que estou sendo autêntico? Será que sou inspiração ou cópia? O que é cópia? Mas cópia do quê?". Essa música faz as pessoas entrarem um pouco em conflito pessoal. O clipe é perturbador. Você assiste e sente uma angústia, tristeza, força, raiva, tudo ao mesmo tempo. Eu quis Kaça para marcar minha volta e anunciar uma nova era. Tenho outras músicas que são mais dançantes, mais pop, mas para marcar esse retorno só poderia ser com Kaça.
Dominatrix e Suíte são duas faixas que chamam atenção pelo teor sexual das letras. Como foi escrevê-las?
Vieram de maneira de maneira muito natural. Sobre a música Dominatrix, um dia o Boss in Drama chegou e falou: "Te acho tão dominatrix. Te vejo com um chicote na mão". E decidimos fazer uma música e nos divertimos muito. Eu gosto de levantar discussões com temas que não são muito abordados. O fetiche sexual é um deles. É um tema que as pessoas têm vergonha. É um tabu ainda. E essa é uma música que, além de despertar a sensualidade de outras mulheres, vai despertar a liberdade de homens que não gostam de se ver numa situação de dominação. Porque a história é outra quando se fala de fetiche sexual com as partes em comum acordo em numa situação de diversão. Suite também tem uma pegada bem sensual. Ela nasceu numa ocasião em que o Boss in Drama perguntou sobre o que eu queria falar. Eu disse: "Antes de começar, queria dizer que estou um pouco brava porque eu queria fazer um sexo casual e não rolou". E desabafei ali. O bom é que a música serve como terapia pra mim.
Como é o seu processo no dia a dia de composição?
Geralmente eu nem escrevo. Já vou gravando direto e a palavra já sai pronta. Mas eu gosto de estar em um ambiente tranquilo, em que eu não tenha hora para ir embora. Porque isso incomoda um pouco, me trava. E gosto de falar de coisas que são reais. Bastante gente compõe sobre coisas místicas e ilusões. Eu prefiro falar da minha experiência mesmo. E não costumo mexer muito em uma música. Acredito que o que saiu é o que era pra ser. É a intuição e o coração dizendo. Se eu começo a mexer, a música perde a essência. Saudade, por exemplo, é uma música muito simples. É, talvez, a música mais simples que eu já escrevi. É um poema pequeno. A lírica é simples. Não tem frases de efeito, que é meu forte. Ela não tem isso. Ela só é triste.
Você conquistou grande projeção nacional nestes últimos anos. Como lida com a fama hoje?
Hoje em dia é mais tranquilo, mas houve um tempo que fiquei um pouco assustada. Quando você vira figura pública, as portas ficam abertas para todo tipo de comentários, opiniões e pensamentos. A única coisa que me incomoda de ser famosa é falarem sobre coisas que eu não sou ou sobre coisas que não fiz. Pois essas coisas se tornam verdades. Isso é o mais assustador de tudo. Eu não ligo para assédio ou para a restrição das atividades que posso fazer em relação ao passado. Eu não ligo, sei que é assim. Agora, notícia fake sobre a minha pessoa acho terrível. Houve um tempo que eu fiquei muito triste e envergonhada com por conta de uma notícia nada a ver comigo. Mas, por fim, eu vi que aquilo era muito pequeno perto da grandiosidade que posso transformar as coisas.
Seu disco chega em um momento de muita apreensão do público negro e LGBT diante das mudanças na cena político. Como você avalia sua atuação como artista nesse cenário?
Meu posicionamento já faz parte da minha existência. Sempre cheguei me impondo, falando coisas. Eu servia de porta-voz para alunos em sala de aula. Então isso pra mim é uma coisa super natural. O que eu acho que não pode ser natural é o medo. O medo não pode ser natural na minha vida e nem na vida das pessoas resistentes. O medo atrai o desnecessário. Eu sempre falo para as pessoas: "Vamos usar esse tempo e energia para focar em estratégias de sobrevivência". Vamos falar de coisas boas. "Ah, mas você não está vendo os problemas?". Há sempre dois lados: o do problema e o da solução. Eu escolhi usar a minha arte e o meu dom para ser solução e conforto para as pessoas. Entendo que existe esse outro caminho. Com isso, acabo mostrando para as pessoas uma forma diferente de pensar. Porque o pensamento é a chave. É a saúde mental que vai elevar a gente.
O Brasil está dessa maneira por falta de cultura, educação e saúde mental. São situações que deixam as pessoas loucas. Existe muita gente com depressão, que não sabe nem o que quer. A gente que tem sanidade tem que usar nossa força para incentivar essas pessoas e trazê-las para o caminho de luz. Eu não posso mergulhar no pessimismo brasileiro atual. Se eu mergulho nesse pessimismo, imagina o que vai virar minha arte, sendo intensa do jeito que eu sou. Prefiro ser o caminho da luz pra galera.
Queria que você falasse um pouco da Karol Conka mãe. A maternidade já foi um problema?
Minha maternidade nunca foi um problema. Ela é uma nutrição pra mim. Eu me sinto nutrida sendo mãe. Meu filho [João, de 10 anos] está vindo morar comigo (ah, graças a Deus!) agora no final do ano. Tem dois anos e meio que a gente não mora junto. Estou passando mal, mas já me sinto mais completa sabendo que ele está vindo pra cá. Parece que falta um braço ou um pedaço do coração quando não se está com o filho perto. Agora as coisas vão ficar mais tranquilas. Vou levar ele para a cama, vou vê-lo deitar e dormir. Sou bem mãezinha. Mas ao mesmo tempo moleca. Eu respeito muito a vontade dele.
Muitos fãs nem sabem que eu tenho filho. Porque minha vida pessoal é bem guardadinha. Eu penso que as pessoas não querem saber da minha pessoal. Porque eu também não quero saber da vida pessoal das pessoas. Depois que fiquei famosa, vi que não é assim. As pessoas querem saber até o que eu como. Isso é uma coisa que não me interessa nas outras pessoas. Mas também sei que essa é uma demonstração do carinho grande que eles têm. Porém, acho importante a minha vida pessoal ficar mantida em um cantinho. Aprendi que o público fala do que você mostra. Então só vou mostrar minha arte para que eles só falem da minha arte. Não quero que minha vida pessoal se torne um problema ou preocupação para as pessoas.
Você tem planos para um carreira internacional?
Chega um ponto na vida do artista que ele precisa expandir. Ele quer estar em todos os lugares e não sabe dizer por quê. Só quer estar. Eu pretendo que a minha arte aconteça na América. Eu já fiz turnê pela Europa, tenho uma porta aberta lá. Mas a América é uma coisa legal. Estou aprendendo inglês - estou indo super nas aulas - e me nutrindo de informações legais para que, quem sabe no terceiro álbum, aconteça alguma coisa lá fora. Eu não trabalho muito em cima de expectativas. Poderia dizer que com esse álbum eu posso acontecer lá fora, mas não vou fazer isso. Não vivo nesse clima mais. Eu vivo o hoje. E hoje eu tenho um álbum lindo que acaba de ser lançado.




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